Um produtor rural recebeu uma execução fiscal de multa ambiental, mas nunca havia sido notificado pessoalmente do processo administrativo. O advogado especializado em direito ambiental conseguiu extinguir a cobrança porque a notificação por edital foi usada antes de esgotar as tentativas de localização.
O Tribunal de Justiça de Mato Grosso confirmou a nulidade da CDA (Certidão de Dívida Ativa) e a extinção da execução fiscal originada de multa ambiental. A base foi a violação ao devido processo legal administrativo (art. 5º, LIV e LV, da Constituição Federal e arts. 24 e 25 do Decreto Estadual nº 1.436/2022).
A notificação por edital é uma medida excepcional: só é válida depois que todas as tentativas razoáveis de localização do autuado falharem. Usar o edital como atalho, sem esgotar os meios ordinários, viola o contraditório e a ampla defesa.
No processo administrativo ambiental, houve uma única tentativa de notificação via carta registrada, que retornou com a informação de “mudou-se”. O órgão ambiental estadual foi direto ao edital, sem nenhuma diligência complementar, apesar de existirem nos autos dados que permitiram a citação do mesmo autuado na fase judicial.
Em primeiro grau, o juiz acolheu a exceção de pré-executividade, declarou a nulidade da CDA e extinguiu a execução fiscal. O Estado de Mato Grosso recorreu, defendendo a validade do edital.
Mas o tribunal negou o recurso. Os desembargadores foram diretos: a notificação editalícia só é válida quando precedida do esgotamento das tentativas de localização pessoal do autuado. A ausência de diligências mínimas para localização configura cerceamento de defesa e anula a CDA.
Sem notificação válida, o processo administrativo ambiental não produz efeitos. E se o processo é nulo, a CDA é nula. E se a CDA é nula, a execução fiscal que tenta cobrar a multa ambiental deve ser extinta.
Antes de aceitar uma execução fiscal de multa ambiental, vale procurar orientação jurídica. Em casos como esse, a defesa especializada pode mudar o resultado ao demonstrar que a notificação por edital foi prematura.
Um ponto que muita gente ignora: a exceção de pré-executividade permite questionar vícios do processo administrativo ambiental dentro da própria execução fiscal, sem precisar de embargos, sem garantia do juízo. É uma ferramenta rápida e eficiente nas mãos de um advogado especializado em direito ambiental.
Qual julgado anulou a CDA por edital prematuro?
Trata-se de uma Apelação Cível, processo 1042171-43.2023.8.11.0041, julgada pelo TJ-MT em 04/02/2026 e publicada em 07/02/2026.
Um produtor rural foi cobrado em execução fiscal por uma multa ambiental estadual. Ele nunca soube do processo administrativo, porque a única carta enviada voltou com a anotação de que ele havia se mudado.
O Estado sustentou que o edital bastava para comunicar a multa. O tribunal respondeu que o órgão ambiental precisava tentar localizar o produtor por outros meios antes de publicar o edital.
O tribunal negou o recurso do Estado e manteve a extinção da execução fiscal. É um caso real, de número público, e não um exemplo hipotético.
Por que a notificação por edital anula a multa ambiental?
A notificação por edital anula a multa ambiental quando o órgão ambiental publica o edital sem antes esgotar as tentativas de localizar o autuado pessoalmente. Sem notificação válida, o autuado não conhece a acusação e perde a chance de se defender no processo administrativo. Isso viola o contraditório e a ampla defesa, garantidos pelo art. 5º, LIV e LV, da Constituição Federal.
O edital é a última opção, e não a primeira. A carta registrada que volta com a anotação “mudou-se” prova apenas que o endereço cadastrado falhou. Ela não prova que o autuado está em lugar incerto.
O STJ firmou, na Súmula 414, que a citação por edital na execução fiscal só cabe quando frustradas as demais modalidades de citação. A mesma lógica se aplica ao processo administrativo ambiental: primeiro as diligências, depois o edital.
E a consequência vem em cadeia. Sem notificação válida, o processo administrativo não produz efeitos. Sem processo válido, a CDA (Certidão de Dívida Ativa, o título que sustenta a cobrança) fica nula. Sem CDA válida, a execução fiscal é extinta.
É preciso separar dois pontos. A nulidade atinge a cobrança da multa, não o dever de reparar eventual dano ao meio ambiente, que segue regra própria. E o vício está na notificação, não no mérito da infração.
Você tem auto de infração ambiental ou embargo?
Consulte grátis pelo CPF ou CNPJ nas bases públicas do IBAMA, do ICMBio e de órgãos estaduais.
Fontes: IBAMA, ICMBio e órgãos estaduais · até 30 consultas por hora · Guia completo
O que dá para alegar na defesa?
A defesa pode alegar a nulidade da notificação por edital quando o órgão ambiental não comprovou diligências para localizar o autuado antes de publicar o edital. A alegação vem com o pedido de nulidade da CDA e de extinção da execução fiscal, com base no devido processo legal e na norma estadual que exige a busca prévia.
A primeira alegação é a ausência de diligências complementares. Se o processo administrativo mostra uma única carta devolvida e, logo depois, o edital, o advogado especializado em direito ambiental demonstra que o órgão não buscou outro endereço, telefone ou cadastro público.
A segunda alegação é a prova de que o órgão tinha como localizar o autuado. Se o endereço correto aparece nos autos da execução fiscal, o Estado conseguia achar o produtor, como mostra o caso em que edital sem diligência anulou o auto de infração ambiental.
A terceira alegação é o cerceamento de defesa, ou seja, a perda do direito de apresentar defesa e recurso por falta de conhecimento do processo. Segundo o tribunal, esse vício contamina o processo administrativo inteiro e a cobrança que veio depois.
Essas alegações podem ser apresentadas por exceção de pré-executividade, uma petição simples dentro da própria execução fiscal. A Súmula 393 do STJ admite esse meio para matérias que o juiz conhece de ofício e que não exigem produção de provas.
Quando a notificação por edital é válida e quando é nula?
O edital é válido apenas depois de o órgão ambiental tentar, sem sucesso, localizar o autuado por mais de um meio. É nulo quando vem logo após uma única carta devolvida ou quando o endereço do autuado era conhecido.
A tabela abaixo compara três situações que aparecem com frequência nos processos de multa ambiental e mostra como o tribunal enxerga cada uma.
| Situação no processo administrativo | Edital | Motivo |
|---|---|---|
| Uma carta devolvida com “mudou-se” e edital publicado em seguida | Nulo | Sem diligências complementares de localização |
| Carta devolvida, busca em outros endereços e cadastros sem sucesso, e só então o edital | Válido | Meios de localização esgotados |
| Endereço do autuado aparece nos autos, mas o edital é publicado mesmo assim | Nulo | O órgão sabia onde localizar o autuado |
Na prática, a linha decisiva é a prova das diligências. O órgão ambiental precisa mostrar no processo o que fez para achar o autuado, e quem recebeu a cobrança precisa conferir se essa prova existe.
No caso julgado pelo TJ-MT, o processo estava na primeira linha da tabela: uma carta, o retorno “mudou-se” e o edital. Foi por isso que a CDA caiu.
O que você deve fazer se está nessa situação?
Quem recebeu uma execução fiscal de multa ambiental sem nunca ter sido notificado deve pedir a cópia integral do processo administrativo e conferir como a notificação foi feita. Depois, deve reunir documentos do endereço da época e procurar um advogado especializado em direito ambiental dentro do prazo da citação.
O passo a passo abaixo organiza o que precisa ser conferido, na ordem em que costuma render resultado.
- Anote a data em que você foi citado na execução fiscal, porque o prazo para reagir conta a partir dela.
- Peça a cópia completa do processo administrativo, com o aviso de recebimento da carta e o edital.
- Confira se houve apenas uma tentativa de notificação antes da publicação do edital.
- Reúna comprovantes de endereço da época da autuação, como contrato, conta de consumo ou cadastro rural.
- Leve a documentação a um advogado para avaliar a exceção de pré-executividade ou os embargos à execução.
Cada item serve a uma prova. A data define o prazo, a cópia do processo mostra o vício e os comprovantes mostram que o órgão ambiental poderia ter localizado o autuado. Para outro exemplo nessa linha, veja como uma execução fiscal foi extinta por notificação por edital inválida.
A escolha entre exceção de pré-executividade e embargos muda a estratégia. Os embargos à execução têm prazo de 30 dias e, em regra, exigem garantia do juízo (art. 16 e art. 16, § 1º, da Lei 6.830/80). A exceção de pré-executividade não tem prazo fixo nem exige garantia.
Perguntas frequentes
O que é a notificação por edital no processo administrativo ambiental?
A notificação por edital é a publicação de um aviso oficial para comunicar a multa ambiental a quem o órgão não conseguiu encontrar. Ela substitui a carta pessoal e só vale como exceção. O tribunal exige que o órgão ambiental tente antes outros meios de localizar o autuado, como novos endereços e cadastros públicos. Sem essa tentativa, a notificação por edital viola o devido processo legal (art. 5º, LIV e LV, da Constituição Federal) e pode levar à anulação da multa e da cobrança.
A carta devolvida com a anotação “mudou-se” basta para o órgão ambiental publicar o edital?
Não basta. A anotação “mudou-se” mostra que o endereço cadastrado não serve, mas não prova que o órgão ambiental esgotou os meios de localizar o autuado. No caso julgado pelo TJ-MT, houve uma única carta e o edital veio logo depois, sem diligências complementares. O tribunal entendeu que isso configura cerceamento de defesa. A norma estadual aplicada (arts. 24 e 25 do Decreto Estadual nº 1.436/2022) exige a busca prévia e a comprovação concreta de que a notificação pessoal era impossível.
O que é exceção de pré-executividade e quando ela serve contra a execução fiscal de multa ambiental?
A exceção de pré-executividade é uma petição apresentada dentro da própria execução fiscal para apontar um vício que o juiz pode reconhecer sem produção de provas. A Súmula 393 do STJ admite esse meio nesses casos. Ela serve, por exemplo, quando o próprio processo administrativo mostra que o edital foi publicado sem diligências. Ao contrário dos embargos à execução, ela dispensa garantia do juízo. Se o vício exigir prova nova, o caminho costuma ser os embargos.
Se a CDA é anulada, o órgão ambiental pode cobrar a multa de novo?
Depende do caso. A decisão analisada extinguiu a execução fiscal por causa da nulidade da CDA e do processo administrativo. Em tese, o órgão ambiental pode tentar refazer o processo desde a notificação, mas só se o prazo de prescrição ainda não tiver acabado. Na esfera federal, o art. 1º da Lei 9.873/99 fixa cinco anos para a ação punitiva, e os Estados têm normas próprias. Por isso, cada caso precisa de análise dos prazos e das datas dos atos do processo.
A decisão vale para multas aplicadas por outros órgãos ambientais, como o IBAMA?
A decisão do TJ-MT aplicou uma norma estadual a uma multa de órgão ambiental estadual, então ela não vincula outros órgãos. O princípio por trás dela, porém, é o mesmo para todos: ninguém pode ser punido sem notificação válida (art. 5º, LIV e LV, da Constituição Federal). Qualquer órgão ambiental, federal, estadual ou municipal, precisa respeitar o contraditório. Quem foi cobrado por multa ambiental com notificação por edital deve conferir se a regra do órgão exige diligências prévias.
Decisões assim só beneficiam quem age dentro do prazo. Quem recebeu uma citação em execução fiscal de multa ambiental deve buscar orientação jurídica especializada em direito ambiental antes que o prazo de defesa se esgote e a cobrança avance.





