Execução fiscal não atinge o adquirente do imóvel

Escrito por
Cláudio Farenzena - Advogado Ambiental

Um comprador de imóvel rural foi cobrado em execução fiscal por uma multa aplicada ao antigo dono, mas o advogado especializado em direito ambiental conseguiu afastar a cobrança porque a sanção só pode atingir quem cometeu a infração.

O Superior Tribunal de Justiça decidiu o caso em recurso especial e reconheceu a ilegitimidade passiva do adquirente. A cobrança nasceu de infração lavrada pelo IBAMA contra o antigo proprietário (art. 14 da Lei 6.938/81 e art. 5º, XLV, da Constituição).

A execução fiscal é o processo em que o órgão cobra a multa na Justiça. Ela exige um título válido e, principalmente, a pessoa certa no polo passivo. Cobrar de quem não cometeu a infração é vício grave.

A multa por infração ambiental é uma penalidade administrativa. Ela pune a conduta de quem degradou o meio ambiente, com dolo ou culpa. Não se confunde com a obrigação de reparar o dano.

Essa distinção é o eixo do caso. A reparação do dano adere ao imóvel e pode ser cobrada do dono atual. A multa, não. Ela segue a pessoa que praticou a infração, e não o imóvel.

Em primeiro e segundo grau, a Justiça manteve a cobrança contra o comprador. O entendimento foi de que a obrigação propter rem das obrigações ambientais bastaria para atingir o novo proprietário, mesmo sem participação no dano.

Mas o tribunal reformou a decisão. Os ministros foram diretos: a punição administrativa não segue a lógica da responsabilidade objetiva. Ela exige conduta própria e nexo entre a ação e o dano.

O STJ separou dois planos. A reparação civil pode alcançar todos os poluidores, inclusive o dono atual que mantém o dano. A sanção, porém, atinge apenas o transgressor, aquele que agiu. É o que se lê no art. 14 da Lei 6.938/81.

Como é que o tribunal chegou aí? A lógica é simples: pena não passa da pessoa do infrator. É o princípio da intransmissibilidade das penas, e ele vale para toda punição do Estado, não só a criminal.

Quem compra um imóvel e recebe, meses depois, uma cobrança judicial por infração do antigo dono costuma não saber por onde começar. O primeiro passo é conferir contra quem o auto foi lavrado, se há conduta atribuível ao comprador e se a cobrança confunde multa com reparação. Um advogado especializado em direito ambiental identifica esse vício.

Um ponto que muita gente ignora: comprar um imóvel com passivo ambiental pode gerar o dever de recuperar a área, mas não transforma o comprador em devedor da multa aplicada contra outra pessoa.

Por que a execução fiscal não pode atingir o adquirente?

Porque a multa é sanção pessoal. A execução fiscal cobra essa multa, e a cobrança só é válida contra quem cometeu a infração. A Constituição garante que nenhuma pena passa da pessoa do infrator (art. 5º, XLV), e isso alcança as multas administrativas.

A responsabilidade administrativa exige culpabilidade. Ou seja, o órgão precisa demonstrar a conduta do autuado, com dolo ou culpa, e o nexo com o dano. Sem esse vínculo pessoal, não há como sustentar a cobrança contra o comprador.

A obrigação de reparar o dano é diferente. Ela é propter rem, adere ao imóvel e acompanha o proprietário atual. O art. 14, §1º, da Lei 6.938/81 separa bem as duas: penalidade de um lado, dever de indenizar e reparar de outro.

Foi essa confusão que o STJ desfez. A instância anterior tratou a multa como se fosse reparação, e por isso cobrou do adquirente. O tribunal corrigiu o rumo: a cobrança da multa não acompanha o imóvel.

O que dá para alegar na defesa da execução fiscal?

A tese principal é a ilegitimidade passiva. Quem não cometeu a infração não pode figurar no polo passivo da cobrança da multa ambiental. Essa alegação cabe em embargos à execução ou em exceção de pré-executividade.

Depois, vale demonstrar a ausência de conduta. O adquirente não praticou a infração, não teve dolo nem culpa, e não há nexo entre ele e o dano. A responsabilidade administrativa não se presume.

Também é forte separar multa de reparação. Se a cobrança é de penalidade, e não de recomposição do dano, o caráter pessoal impede que o comprador pague por fato de terceiro.

Por fim, atenção ao título. A certidão de dívida ativa precisa indicar corretamente o infrator. Cobrar o adquirente por auto lavrado contra o antigo dono é vício que atinge a validade da cobrança.

O que fazer se você recebeu uma execução fiscal assim?

Confira contra quem o auto de infração foi lavrado. Se o autuado é o antigo proprietário, e você apenas comprou o imóvel depois, a cobrança provavelmente atinge a pessoa errada.

Reúna a escritura, a data da compra, o auto de infração e a certidão de dívida ativa. Esses documentos mostram que a infração é anterior à sua entrada no imóvel.

Observe o prazo. Na cobrança judicial, o prazo para embargos conta da intimação da penhora, e é curto. Deixar passar dificulta a defesa e pode levar ao bloqueio de bens.

Procure orientação técnica antes de qualquer pagamento. Um advogado especializado em direito ambiental avalia se a cobrança é dirigida a quem de fato cometeu a infração. Você pode ver também um caso em que o STJ anulou o auto de infração sem prova de culpa.

Para não misturar os conceitos, vale ver lado a lado o que alcança o comprador do imóvel e o que não alcança. O quadro resume a distinção usada pelo STJ.

Cobrança Natureza Segue Atinge o adquirente?
Reparação do dano Propter rem O imóvel Sim, acompanha o bem
Multa ambiental Sanção pessoal O infrator Não, na execução fiscal

Na prática, quem compra um imóvel com dano pode ter de recuperar a área, porque essa obrigação acompanha o bem. Mas não é obrigado a pagar, em execução fiscal, a multa aplicada contra o antigo dono. São responsabilidades com fundamentos distintos.

Perguntas frequentes sobre execução fiscal de multa ambiental

O comprador do imóvel responde pela multa ambiental do antigo dono?

Não, quando a multa pune uma infração cometida pelo antigo proprietário. A multa ambiental é sanção pessoal e a execução fiscal só pode atingir quem praticou a conduta, com dolo ou culpa (art. 5º, XLV, da Constituição). O STJ reconhece a ilegitimidade passiva do adquirente nesses casos. O que segue o imóvel é a obrigação de reparar o dano, não a penalidade. Por isso, comprar a área não transfere a multa aplicada contra outra pessoa.

Qual a diferença entre reparar o dano e pagar a multa na execução fiscal?

São coisas distintas. A reparação do dano é obrigação propter rem: adere ao imóvel e alcança o dono atual, mesmo sem culpa. A multa ambiental é penalidade administrativa, cobrada em juízo, e segue a pessoa do infrator. O art. 14, §1º, da Lei 6.938/81 deixa clara essa separação: as penalidades atingem os transgressores; o dever de indenizar e reparar atinge os poluidores. Confundir as duas é o que gera cobrança indevida contra o comprador.

Cabe embargos à execução fiscal para discutir isso?

Sim. Os embargos à execução são a via para desconstituir o título e extinguir a cobrança indevida. O executado é citado para pagar em cinco dias ou apresentar embargos no prazo legal, e nesse momento pode alegar a ilegitimidade passiva e a ausência de conduta. Em casos claros, cabe também a exceção de pré-executividade, sem garantia do juízo. A escolha da via depende da situação e deve ser avaliada por um advogado especializado em direito ambiental. Conheça as principais defesas do executado na execução fiscal de multa ambiental.

A responsabilidade ambiental não é objetiva?

É objetiva apenas para a reparação civil do dano. Para punir, o Estado precisa de culpabilidade: conduta própria, com dolo ou culpa, e nexo causal. Por isso a multa e a cobrança judicial não podem recair sobre quem não agiu. O STJ distingue os dois regimes: a reparação alcança todos os poluidores; a sanção, apenas o transgressor. Essa diferença é o que impede a cobrança automática contra o adquirente.

Comprei um imóvel com auto de infração antigo. Devo pagar?

Antes de pagar, confira quem é o autuado e a data da infração. Se o auto foi lavrado contra o antigo dono, por fato anterior à sua compra, a multa provavelmente não é sua. A cobrança precisa apontar o infrator correto na certidão de dívida ativa. Pagar sem essa conferência pode significar quitar dívida de terceiro. O ideal é uma análise técnica do auto e do título antes de qualquer decisão sobre a cobrança.

Decisões assim só beneficiam quem age dentro do prazo. Quem recebeu uma execução fiscal por multa aplicada a antigo proprietário deve buscar orientação jurídica especializada em direito ambiental antes que o prazo de embargos se esgote e os bens sejam bloqueados. Vale conhecer o serviço de anulação ou redução de multa ambiental.

Cláudio Farenzena - Advogado Ambiental

Sobre o Autor

Cláudio Farenzena

Cláudio Farenzena é advogado inscrito na OAB/SC 49.222 e OAB/MT 35.260/A, especialista em Direito Ambiental e do Agronegócio pela Universidade Federal do Paraná - UFPR, professor do Direito Ambiental e Vice-Presidente do Instituto de Direito Agroambiental - IDAM. Atua desde 2017 em todo o Brasil de forma online ou presencial para defender empresas e produtores rurais em processos administrativos, criminais, ação civil pública e execução fiscal de multa ambiental.

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