Laudo do MP sozinho não prova crime ambiental de desmate

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Cláudio Farenzena - Advogado Ambiental
Claudio Farenzena, melhor advogado ambiental do Brasil

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Um produtor rural foi acusado de crime ambiental por desmatamento em área de Mata Atlântica, mas o advogado especializado em crime ambiental conseguiu a absolvição porque o laudo da acusação foi produzido de forma parcial e sem validade jurídica.

O Tribunal de Justiça de Minas Gerais reconheceu que a prova pericial produzida unilateralmente pelo Ministério Público não tem validade em processo penal. A base legal é o artigo 38-A da Lei 9.605/1998, que pune o desmatamento na Mata Atlântica com penas de até três anos de detenção.

Para esse tipo de crime ambiental, a lei exige laudo pericial que comprove a materialidade. Ou seja, uma prova técnica capaz de atestar que a área era realmente protegida e que o crime ambiental de desmatamento de fato ocorreu — não apenas que houve supressão de vegetação.

O Ministério Público apresentou um laudo produzido por ele mesmo, sem ordem da autoridade policial nem requisição do juiz. Em primeiro grau, o réu foi condenado. A defesa recorreu.

Mas o tribunal não confirmou a condenação. A análise da forma como o laudo de crime ambiental foi produzido foi o que virou o jogo.

Os desembargadores reconheceram que o Ministério Público é parte no processo penal. Um laudo produzido diretamente por quem acusa, sem intervenção do juízo, é prova parcial. Prova parcial não tem validade jurídica.

E faz sentido. Se a parte acusadora produz seu próprio laudo de crime ambiental, o réu fica sem como questionar a metodologia e os critérios técnicos usados. O contraditório deixa de existir na prática.

Sem laudo pericial válido e oficial, não há como provar que a vegetação desmatada era primária ou secundária em estágio protegido pela lei. Sem isso, o crime ambiental de desmatamento na Mata Atlântica não fica provado. A absolvição foi a consequência direta dessa lacuna.

Um advogado especializado em crime ambiental examina não só o conteúdo do laudo, mas como ele foi produzido. Quem produziu, por ordem de quem, com qual metodologia. São esses detalhes que definem se a prova é válida ou ilegal.

Um ponto que muita gente ignora: a invalidade da prova pericial pode ser levantada no recurso, mesmo depois de uma condenação em primeiro grau. É exatamente aí que um advogado especializado em direito ambiental faz a diferença.

Em casos de crime ambiental envolvendo desmatamento, a diferença entre uma defesa genérica e uma defesa especializada costuma ser o resultado final. Procure um advogado com atuação em direito ambiental para avaliar o seu caso.

Qual julgado decidiu que laudo feito pelo Ministério Público não vale?

A decisão que dá origem a este informe é uma apelação criminal julgada pelo Tribunal de Justiça de Minas Gerais, processo nº 0087015-95.2017.8.13.0479, com acórdão publicado em 25/05/2022.

O caso começou com uma denúncia por desmatamento em área de Mata Atlântica. A prova da materialidade era um laudo produzido pelo próprio Ministério Público, juntado ao processo sem requisição do juiz.

Em primeiro grau, o laudo sustentou a condenação. No recurso, o tribunal respondeu que o Ministério Público é parte no processo penal e que prova produzida por quem acusa não tem validade jurídica.

O recurso da defesa foi provido e o réu foi absolvido pelo tribunal. É um caso real, de número público, e não um exemplo hipotético.

Por que o laudo feito pela acusação não vale em crime ambiental?

Porque o Ministério Público é parte no processo penal, e a prova técnica de quem acusa não passa pelo controle do juiz nem da defesa. No julgado comentado, o tribunal entendeu que o laudo juntado sem ofício da autoridade policial e sem requisição do magistrado é prova parcial e, por isso, ilegal. Sem laudo pericial válido, o delito do art. 38-A da Lei 9.605/98 não fica provado.

O art. 158 do Código de Processo Penal diz que, quando a infração deixa vestígios, o exame de corpo de delito é indispensável, direto ou indireto, e nem a confissão do acusado pode substituí-lo. O desmatamento deixa vestígios na vegetação e no solo. Por isso, a perícia é obrigatória.

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O art. 159 do mesmo Código prevê que o exame seja feito por perito oficial, ou seja, um profissional do Estado que não pertence a nenhuma das partes. Quando o próprio acusador elabora o laudo, o juiz recebe uma conclusão técnica que a defesa não pôde acompanhar, e o contraditório e a ampla defesa (art. 5º, LV, da Constituição Federal) perdem o efeito prático.

Há ainda uma segunda exigência. O art. 38-A só alcança vegetação primária ou secundária em estágio médio ou avançado de regeneração do Bioma Mata Atlântica, e apenas um perito consegue classificar o estágio da mata. Sem essa classificação, o fato pode ter ocorrido sem ser crime.

No caso comentado, o laudo oficial existente também não atestava a extensão do dano. Ou seja, o laudo da acusação não valia e o laudo oficial não provava o que a lei exige.

O que dá para alegar na defesa?

A primeira alegação é a origem do laudo. Quem o produziu, por ordem de quem e em que momento? Se o documento chegou ao processo pelas mãos do Ministério Público, sem ofício da autoridade policial ou requisição do juiz, a defesa pede que ele seja declarado sem validade.

Essa alegação faz parte de um conjunto maior de defesas baseadas na ausência de prova técnica, explicadas em um guia sobre quando a falta de perícia leva à absolvição em crime ambiental. O ponto comum é que a materialidade do delito exige laudo, e não suposição.

A segunda alegação é a insuficiência técnica do laudo. O documento precisa dizer qual era a vegetação, em que estágio de regeneração estava e qual a extensão do dano. Laudo genérico, que apenas afirma que houve supressão, não completa a prova do art. 38-A.

A terceira alegação é a violação ao contraditório. O réu tem direito de acompanhar a prova, indicar assistente técnico e questionar a metodologia, o que não acontece com laudo unilateral, como mostra outro caso em que o laudo feito pela acusação não valeu em crime ambiental.

A quarta alegação é a nulidade da prova, que pode ser levantada inclusive no recurso, como ocorreu aqui: a condenação de primeiro grau foi revertida na apelação. Quanto antes ela aparecer no processo, mais espaço a defesa tem para agir.

O que você deve fazer se responde por desmatamento?

Comece pelo laudo, porque é nele que a defesa se apoia. Antes de qualquer decisão, reúna os documentos e confira como a prova técnica entrou no processo.

  1. Peça cópia integral do processo e localize o laudo pericial, anotando quem o assinou e em que data foi juntado.
  2. Verifique se existe ofício da autoridade policial ou requisição do juiz pedindo a perícia.
  3. Confira se o laudo identifica o bioma, o tipo de vegetação, o estágio de regeneração e a extensão do dano.
  4. Observe se a defesa teve oportunidade de indicar assistente técnico e de fazer perguntas ao perito.
  5. Controle os prazos do processo penal, como o da resposta à acusação e o da apelação, que correm a partir da intimação.

Para facilitar a conferência, a tabela abaixo resume como a prova costuma ser tratada conforme a origem e o conteúdo do laudo. Ela serve de roteiro de leitura e não substitui a análise do processo.

Situação do laudo Vale como prova? Motivo
Produzido pelo Ministério Público e juntado sem requisição do juiz Não Prova parcial, sem controle do juiz nem da defesa
Perícia oficial feita por ordem da autoridade policial ou do juiz Sim Perito do Estado, fora do interesse das partes
Laudo oficial sem indicação do estágio da vegetação Insuficiente Não prova a materialidade do art. 38-A
Confissão ou testemunho no lugar da perícia Não O art. 158 do Código de Processo Penal veda a substituição

Ou seja, ter um documento chamado laudo não basta. O que conta é quem o produziu e o que ele prova, e até a perícia indireta pode ser insuficiente, como na decisão em que a perícia indireta não condenou por crime ambiental.

Com o quadro montado, um advogado especializado em crime ambiental define se o caminho é pedir absolvição, anulação da prova ou recurso contra a condenação.

Perguntas frequentes

O Ministério Público pode produzir laudo em processo por desmatamento?

O Ministério Público pode requisitar diligências à autoridade policial (art. 129, VIII, da Constituição Federal) e pedir perícia ao juiz. No âmbito cível, essas requisições correm no inquérito civil, e é no acompanhamento de inquérito no Ministério Público que a prova própria entra antes do ajuizamento. O que o tribunal afastou, no julgado comentado, foi o laudo elaborado pela própria acusação e juntado ao processo sem ofício da autoridade policial e sem requisição do magistrado. Esse documento foi tratado como prova parcial, porque quem acusa não pode ser também quem produz a prova técnica. A diferença está no caminho: perícia pedida pela via oficial vale, laudo unilateral não vale.

A perícia é obrigatória no processo por desmatamento?

Sim, quando o desmatamento deixa vestígios. O art. 158 do Código de Processo Penal torna indispensável o exame de corpo de delito, direto ou indireto, e proíbe que a confissão o substitua. Para o delito do art. 38-A da Lei 9.605/98, o tribunal entendeu que o laudo pericial, original ou cópia autenticada, é indispensável para provar a materialidade e que nenhum outro meio de prova o supre. Isso inclui a classificação do estágio de regeneração da vegetação, que só o perito consegue atestar.

O que acontece se o laudo for declarado sem validade?

Sem laudo válido, o processo perde a prova da materialidade, ou seja, a prova de que o crime existiu. O art. 386 do Código de Processo Penal manda o juiz absolver quando não há prova da existência do fato (inciso II) ou prova suficiente para condenar (inciso VII). Foi o que aconteceu no julgado comentado, que terminou em absolvição. Em outras situações, a depender da fase do processo e de o local ainda permitir exame, o juiz pode determinar nova perícia, e a defesa precisa estar preparada para essa possibilidade.

Dá para pedir a nulidade do laudo depois da condenação em primeiro grau?

Dá. Da sentença de condenação cabe apelação, no prazo de 5 dias, conforme o art. 593, I, do Código de Processo Penal, e a ilegalidade da prova pode ser o motivo central do recurso. No julgado comentado, a condenação havia sido proferida em primeiro grau e foi revertida pelo tribunal, que decretou a absolvição por falta de laudo válido. Mesmo assim, levantar a nulidade o quanto antes, ainda na resposta à acusação, preserva a discussão em todas as instâncias.

Quem foi multado administrativamente pelo mesmo desmatamento pode usar essa defesa?

Em parte. O art. 225, §3º, da Constituição Federal separa as sanções penais, as administrativas e a obrigação de reparar o dano, que correm de forma independente. A absolvição penal por falta de prova da materialidade não encerra, por si só, a multa aplicada pelo órgão ambiental, que segue o Decreto 6.514/2008 e tem regras de prova próprias. A discussão sobre a qualidade do laudo pode ajudar na defesa administrativa, mas cada processo precisa de análise separada, e o caminho próprio dela está na defesa em processo administrativo de desmatamento na Mata Atlântica.

Cada processo por desmatamento tem suas particularidades técnicas e jurídicas. A análise por advogado especializado em direito ambiental é o que define se há caminho para anular a prova ou reverter a condenação.

Sobre o Autor

Cláudio Farenzena

Advogado especialista em Direito Ambiental e do Agronegócio pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), professor do Direito Ambiental e Vice-Presidente do Instituto de Direito Agroambiental (IDAM). Atua desde 2017 em todo o Brasil para defender empresas e produtores rurais em processos administrativos, criminais, ação civil pública e execução fiscal de multa ambiental.

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