Auto de infração anulado por fraude de terceiro

Escrito por
Cláudio Farenzena - Advogado Ambiental

Um criador de pássaros foi multado pelo IBAMA por uma suposta irregularidade no cadastro, mas o advogado especializado em direito ambiental conseguiu anular o auto de infração porque o registro tinha sido feito por fraude de terceiro, sem culpa da autuada.

A decisão saiu do Tribunal Regional Federal da 4ª Região, em ação anulatória. A base do caso está no art. 70 da Lei 9.605/98, que define a infração administrativa ambiental.

Esse auto de infração é a multa ambiental que o órgão aplica quando alguém descumpre uma regra de proteção do meio ambiente. Só que aplicar a multa exige mais do que apontar um erro no cadastro.

A responsabilidade administrativa ambiental é subjetiva. Ou seja, o IBAMA precisa provar que a pessoa agiu com culpa ou dolo, e não apenas que existe uma falha registrada no sistema.

No caso, a autuação nasceu de um endereço no cadastro que não correspondia à realidade. A autuada explicou desde o início: o registro tinha sido inserido por fraude de outra pessoa.

Em primeiro grau, o juiz anulou a autuação. O IBAMA recorreu, sustentando que o dado errado no cadastro já bastaria para manter a multa ambiental.

Mas o tribunal negou o recurso. Os desembargadores foram diretos: sem prova de que a autuada agiu com culpa, não existe base para a multa.

Sem prova de culpa, a multa administrativa não se sustenta. A responsabilidade objetiva vale para reparar o dano ambiental, não para punir com multa.

O vício que derrubou essa multa não aparece para quem lê o auto de infração pela primeira vez. Um advogado especializado em direito ambiental sabe onde procurar: a falta de prova da culpa e a origem fraudulenta do dado.

O erro mais frequente nesse tipo de caso é aceitar a cobrança achando que o dado do sistema decide tudo. Não decide. Cadastro com fraude de terceiro não transfere culpa para quem foi vítima.

Por que o IBAMA precisa provar culpa para manter o auto de infração?

Porque a responsabilidade administrativa ambiental é subjetiva. O IBAMA só mantém a autuação se demonstrar que a pessoa agiu com culpa ou dolo. Foi o que o STJ firmou ao julgar o EREsp 1.318.051/RJ: a punição por multa segue a teoria da culpabilidade, com prova da conduta e do nexo entre a conduta e o dano.

Existe uma confusão comum aqui. O dano ambiental gera responsabilidade objetiva no campo civil, para reparar o estrago. Reparar independe de culpa.

A multa é diferente. Ela pune. E punir exige culpa. Essa distinção entre reparar e punir está no centro de muitos casos em que o auto de infração é anulado, a exemplo de decisões em que o STJ anula auto de infração sem prova de culpa.

No cadastro do IBAMA, um dado errado pode ter várias origens: erro do sistema, fraude, ação de terceiro. O órgão precisa mostrar que a própria pessoa autuada agiu de forma culposa. Quando a origem é a fraude de outra pessoa, falta o vínculo entre a conduta da autuada e a irregularidade, e a multa perde sustentação.

Para separar bem os dois planos de responsabilidade, vale olhar o quadro abaixo. Ele mostra por que reparar o dano e pagar multa não são a mesma coisa.

Aspecto Responsabilidade objetiva (civil) Responsabilidade administrativa (subjetiva)
Para que serve Reparar o dano ambiental Punir com multa ambiental
Exige culpa? Não, basta o dano e o nexo Sim, culpa ou dolo do autuado
Quem tem o ônus O responsável repara o dano O IBAMA prova a culpa
Base legal art. 14, §1º, da Lei 6.938/81 art. 70 da Lei 9.605/98 e STJ

Na prática, o quadro explica o resultado do caso. O produtor autuado até poderia ser chamado a reparar um dano, mas a multa depende de culpa. Sem culpa provada, a autuação não se sustenta na parte punitiva.

O que dá para alegar na defesa contra o auto de infração?

A tese central é a ausência de culpa. Se o dado que gerou a autuação veio de fraude de terceiro, a pessoa não praticou a conduta punível. Some-se a isso a responsabilidade subjetiva reconhecida pelo STJ e a falta de nexo entre a pessoa e a irregularidade. São argumentos que levam à anulação do auto de infração e da multa ambiental.

Primeiro argumento: a origem fraudulenta do registro. Documentos, boletim de ocorrência e o histórico do cadastro ajudam a mostrar que outra pessoa inseriu o dado.

Segundo: a responsabilidade administrativa é subjetiva. O ônus da prova é do IBAMA, não da pessoa autuada. Não cabe ao cidadão provar que um terceiro agiu.

Terceiro: a ausência de nexo causal. A conduta da autuada não gerou a irregularidade, e sem esse vínculo a cobrança fica sem fundamento. Esse raciocínio aparece em vários julgados, e conteúdos como o que explica por que a ausência de culpa é suficiente para cancelar o auto de infração ajudam a entender o ponto.

Cada um desses pontos pode aparecer sozinho ou somado. Um advogado especializado em direito ambiental organiza a defesa para atacar a autuação exatamente onde ela falha.

O que você deve fazer se recebeu um auto de infração parecido?

Reúna tudo que mostre a origem do problema e observe o prazo de defesa. Se houve fraude ou ação de terceiro, junte as provas desde o início. E procure orientação técnica antes de aceitar a multa ambiental, porque a responsabilidade subjetiva pode ser o caminho para anular a autuação.

Na prática, alguns passos ajudam:

  1. Confira a data do auto de infração e o prazo para apresentar defesa.
  2. Levante documentos que mostrem quem realmente inseriu ou alterou o dado.
  3. Registre a fraude formalmente, quando for o caso.
  4. Guarde tudo que comprove que você não teve culpa na irregularidade.
  5. Procure um advogado especializado em direito ambiental para avaliar a nulidade.

Esses passos não garantem resultado, mas organizam a defesa. O que decide é a leitura técnica da autuação e das provas de que a culpa não foi sua. É esse trabalho que pode levar à anulação do auto de infração ambiental.

Perguntas frequentes

O auto de infração do IBAMA pode ser anulado por fraude de terceiro?

Sim. Quando o dado que gerou a autuação veio de fraude praticada por outra pessoa, falta a culpa do autuado, e a responsabilidade administrativa ambiental é subjetiva. O STJ firmou esse entendimento no EREsp 1.318.051/RJ: para punir com multa, o IBAMA precisa demonstrar a conduta da pessoa e o nexo entre essa conduta e o dano. Se um terceiro inseriu o registro de forma fraudulenta, a pessoa autuada não praticou a infração. Nesse cenário, o auto de infração e a respectiva multa ambiental podem ser anulados, como reconheceu o Tribunal Regional Federal da 4ª Região.

Qual a diferença entre responsabilidade objetiva e subjetiva no direito ambiental?

São planos diferentes que costumam ser confundidos. A responsabilidade objetiva vale para reparar o dano ambiental: quem causou o estrago repara, independentemente de culpa. Já a responsabilidade administrativa, que sustenta a multa ambiental, é subjetiva. Para aplicar a penalidade, o IBAMA precisa provar que a pessoa agiu com culpa ou dolo. Uma coisa é obrigar a reparar o meio ambiente; outra é punir com multa. O STJ separa esses dois planos, e é essa distinção que permite anular multas aplicadas sem prova de culpa.

De quem é o ônus de provar a culpa?

O ônus é do IBAMA, o órgão que aplicou a multa. Como a responsabilidade administrativa ambiental é subjetiva, cabe ao órgão demonstrar que a pessoa autuada agiu com culpa ou dolo. Não é o cidadão que precisa provar a inocência de um terceiro ou explicar como o dado errado apareceu no sistema. O ato administrativo tem presunção de legitimidade, mas essa presunção não substitui a prova da culpa. Quando o órgão não faz essa demonstração, a multa ambiental fica sem sustentação e pode ser anulada na Justiça.

Preciso pagar a multa ambiental antes de discutir?

Não é obrigatório pagar para depois discutir. A pessoa autuada pode apresentar defesa administrativa dentro do prazo indicado no auto de infração e, se for o caso, ajuizar ação anulatória, que é o processo na Justiça para derrubar a autuação. Pagar sem análise pode significar aceitar uma multa ambiental que talvez seja nula, por exemplo quando falta prova da culpa. O melhor caminho é analisar a cobrança antes de qualquer pagamento. Um advogado especializado em direito ambiental avalia se existe vício que justifique a suspensão ou a anulação.

Vale a pena entrar com ação anulatória mesmo após decisão administrativa?

Sim, em muitos casos vale. Mesmo que o IBAMA mantenha a multa ambiental no processo administrativo, a pessoa pode levar a discussão ao Judiciário por meio de ação anulatória. O juiz analisa se houve prova de culpa e nexo, sem ficar preso à conclusão do órgão. Foi assim que a Justiça Federal, no caso julgado pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região, reconheceu a nulidade da autuação nascida de fraude de terceiro. O prazo para essa ação existe, então a análise não deve ficar para depois.

Quem recebeu um auto de infração tem direito a defesa técnica desde o primeiro dia do prazo. Em casos que envolvem cadastro com fraude ou ausência de culpa, procure orientação jurídica especializada em direito ambiental.

Cláudio Farenzena - Advogado Ambiental

Sobre o Autor

Cláudio Farenzena

Cláudio Farenzena é advogado inscrito na OAB/SC 49.222 e OAB/MT 35.260/A, especialista em Direito Ambiental e do Agronegócio pela Universidade Federal do Paraná - UFPR, professor do Direito Ambiental e Vice-Presidente do Instituto de Direito Agroambiental - IDAM. Atua desde 2017 em todo o Brasil de forma online ou presencial para defender empresas e produtores rurais em processos administrativos, criminais, ação civil pública e execução fiscal de multa ambiental.

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