Minha queimada fugiu do controle: é crime doloso?

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Cláudio Farenzena - Advogado Ambiental
Claudio Farenzena, melhor advogado ambiental do Brasil

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O fogo era seu, na sua área, com aceiro feito e horário combinado. O vento virou, passou a linha e queimou o mato do fundo. Duas semanas depois chega a intimação da delegacia, e a acusação fala em art. 41 da Lei 9.605/98: incêndio florestal, reclusão de 2 a 4 anos.

A resposta curta é esta: dá para ser denunciado por dolo, sim, mas para condenar o Ministério Público precisa provar que você quis o fogo ali. Sem essa prova, a conduta desce para a forma culposa. E sem laudo, nem a forma culposa se sustenta.

Isso é mais comum do que parece. Quem trabalha com terra usa fogo em algum momento do ano, e fogo se comporta mal quando o tempo vira.

Existe julgado que aceitou a versão do incêndio acidental?

Apelação Criminal 1000967-48.2020.8.11.0033, julgada pelo Tribunal de Justiça de Mato Grosso, com acórdão publicado em 24/10/2025. A acusação era de incêndio florestal e de poluição.

Em primeiro grau, o juiz absolveu por não existir prova suficiente para condenar. A defesa sustentava que o fogo tinha sido acidental e que a área usada como depósito de resíduos havia sido cedida ao município.

O Ministério Público recorreu dizendo que dava para condenar sem laudo, apoiado nos documentos administrativos do órgão ambiental estadual. O tribunal respondeu que não: crime que deixa vestígio exige exame de corpo de delito.

Recurso desprovido, absolvição mantida. Os desembargadores registraram que a versão do incêndio acidental era plausível. É um caso real, de número público, e não um exemplo hipotético.

Ou seja: se a tese do fogo que escapou já foi acolhida uma vez, a sua merece ser olhada com atenção antes de qualquer coisa.

Dolo é querer o fogo. Culpa é deixar ele escapar.

O art. 41 da Lei 9.605/98 pune quem provoca incêndio em floresta ou em demais formas de vegetação. A pena do caput é de reclusão de 2 a 4 anos, e multa. O parágrafo único trata do mesmo fato quando ele é culposo, e aí a pena é de detenção de 6 meses a 1 ano, e multa.

A diferença entre as duas figuras não está no tamanho do estrago que ficou no chão. Está na cabeça de quem acendeu o fósforo.

Quem toca fogo para abrir um piquete, faz o aceiro, avisa o vizinho e perde o controle no meio da tarde não quis o resultado. Quis a limpeza da área. O fogo que passou para a mata é o resultado indesejado de uma conduta que saiu do domínio da pessoa, e o direito penal chama isso de culpa, não de dolo.

Só que a denúncia raramente nasce com essa distinção feita. O inquérito chega com o boletim do órgão ambiental, uma foto de área queimada e a informação de que a pessoa admitiu ter usado fogo. O promotor lê aquilo e denuncia pelo caput, que é mais grave.

E quem tem que provar o dolo? A acusação. Nunca você. O agente precisa provar o que ele alega, e sustentar que o fogo foi proposital sem nada que demonstre a intenção é acusação sem pé.

O que separa 4 anos de reclusão de uma transação penal

Essa distinção parece conversa de doutrina até você olhar o que acontece, na prática, com quem é enquadrado em cada uma delas.

Denunciado pelo caput, você responde ação penal comum, com instrução, testemunhas e sentença. A pena mínima de 2 anos ainda permite o acordo de não persecução penal, porque o art. 28-A do Código de Processo Penal exige pena mínima inferior a 4 anos, e é desse enquadramento que trata a atuação em acordo de não persecução penal por crime ambiental, mas o acordo pressupõe confissão formal e circunstanciada do crime. Você confessa um incêndio florestal que não quis provocar.

Reconhecida a forma culposa, o cenário muda inteiro. A pena máxima passa a ser de 1 ano, e o art. 61 da Lei 9.099/95 considera de menor potencial ofensivo o crime cuja pena máxima não passa de 2 anos. Entra o Juizado, e com ele a possibilidade de transação penal do art. 76, que não é confissão e não gera antecedente criminal.

O relógio também anda diferente. Pelo art. 109 do Código Penal, pena máxima de 4 anos prescreve em 8 anos. Pena máxima de 1 ano prescreve em 4. Em processo que começou lento, e esse tipo de inquérito costuma começar lento, essa conta sozinha já resolve muita coisa.

Se não existe laudo do fogo, o processo já começa torto

Vamos ao que a lei exige. O art. 79 da Lei 9.605/98 manda aplicar subsidiariamente o Código de Processo Penal aos crimes ambientais. E o art. 158 do CPP é direto: quando a infração deixa vestígios, o exame de corpo de delito é indispensável, e nem a confissão do acusado supre a falta dele.

E incêndio deixa vestígio, sempre. Deixa área queimada, cinza no chão, tronco carbonizado, regeneração interrompida no meio.

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Então a primeira pergunta do processo não é se você acendeu. É se alguém mediu o que queimou, com que método, e se quem mediu era perito oficial com diploma de curso superior, como exige o art. 159 do CPP. Boletim de fiscalização não é laudo pericial. Relatório de vistoria feito pelo próprio órgão que autuou também não.

O art. 167 do CPP só admite trocar a perícia por prova testemunhal quando os vestígios desapareceram de verdade. Foi exatamente isso que o tribunal cobrou no caso acima, e a acusação não demonstrou essa impossibilidade.

E o prazo para levantar tudo isso é curto. Recebida a denúncia e feita a citação, o art. 396 do CPP dá 10 dias para a resposta à acusação, e é nessa peça que se arrolam testemunhas, se juntam documentos e se especificam as provas pretendidas. O art. 159, § 3º, garante ao acusado formular quesitos e indicar assistente técnico. Quem perde essa janela corre atrás o resto do processo inteiro, e é por isso que a defesa em ação penal por crime ambiental começa pela contagem desse prazo.

Aceitar a transação penal sem ler o que o laudo não provou

Aqui está o erro que mais custa caro nesse tipo de acusação, e o pior é que ele não parece erro nenhum na hora em que é cometido.

O produtor é chamado ao Juizado, o promotor oferece a transação, o valor não é alto, e alguém diz que assim “resolve rápido e não fica nada na ficha”. Ele aceita. Só que aceitou pagar por um fato cuja materialidade talvez nunca tenha sido provada, e encerrou a discussão que teria derrubado a acusação inteira.

Entregar a defesa ao engenheiro que faz o laudo da fazenda é o segundo. Ele é essencial como assistente técnico, mas quem argui nulidade de perícia, pede desclassificação e alega prescrição é advogado, no prazo do art. 396. A mesma divisão vale antes do evento, na gestão de riscos ambientais em operações de petróleo e gás, em que o documento técnico é de quem tem habilitação para assiná-lo e a leitura da exposição a sanção é jurídica.

Falar antes de ler o inquérito é o terceiro. A conversa informal na delegacia, contando com detalhes como o fogo começou, costuma virar a única prova de autoria que o processo tem.

A diferença que faz um advogado especialista em crime de incêndio florestal

O trabalho de defesa começa pelo inquérito, e começa procurando exatamente aquilo que não está dentro dele.

Um advogado especialista em crime de incêndio florestal lê o caderno atrás do laudo pericial, confere quem o assinou, olha a data em que a área foi examinada e compara com a data do fogo. Verifica se o exame descreve a vegetação atingida ou se apenas repete a palavra “floresta”. Sem essa descrição, não há como saber se o fato se encaixa no art. 41. Conferir quem assinou e com que método é também o núcleo da revisão jurídica de EIA/RIMA no setor de petróleo e gás, porque quem apresenta o estudo responde por ele.

Depois vem a prova que constrói a tese da culpa: boletim meteorológico do dia, com direção e velocidade do vento; fotos do aceiro; nota de compra de equipamento de combate; testemunhas que viram a tentativa de conter o fogo; autorização de queima, quando existir. Quem opera em escala industrial já mantém registro parecido de cada fonte de queima, pelo trabalho de desenvolvimento de estratégias para redução de emissões de gases de efeito estufa.

Tudo isso separa quem quis o fogo de quem foi surpreendido por ele. Vale a leitura do nosso informe sobre queimada controlada que virou multa, porque o mesmo conjunto de documentos costuma servir nas duas frentes.

A partir daí, a atuação tem três caminhos possíveis, e eles não se excluem: absolvição por falta de materialidade, desclassificação para a forma culposa e reconhecimento da prescrição. O portal Comunidade Ambiental reúne julgados na mesma linha em ausência de perícia em crime ambiental e absolvição.

É esse desenho que o escritório aplica na defesa em ação penal por crime ambiental de queimada ou uso de fogo, sempre com a advocacia especializada em crime de queimada olhando primeiro a prova técnica e só depois a versão dos fatos.

O que mais se pergunta depois da intimação por incêndio florestal

Se o fogo era na minha propriedade, ainda assim é crime?

Pode ser. O art. 41 da Lei 9.605/98 não exige que a vegetação seja de terceiro. O que ele exige é que tenha havido incêndio em floresta ou em demais formas de vegetação, e que a acusação prove isso por perícia.

Dá para desclassificar o incêndio florestal doloso para culposo?

Dá, e é uma das teses centrais de defesa. O parágrafo único do art. 41 prevê a forma culposa, com detenção de 6 meses a 1 ano. Não provado o dolo, é essa a figura que resta, quando resta alguma.

Sem laudo pericial posso ser condenado por incêndio florestal?

O art. 158 do CPP diz que o exame de corpo de delito é indispensável nos crimes que deixam vestígios, e que nem a confissão supre a falta dele. O art. 167 só permite substituir a perícia por prova testemunhal quando os vestígios desapareceram, e essa impossibilidade precisa ser demonstrada nos autos, não presumida.

Em quanto tempo prescreve o crime de incêndio florestal?

Pelo art. 109 do Código Penal, a forma dolosa prescreve em 8 anos e a culposa, em 4. A contagem segue as regras da lei penal.

Fui multado pelo órgão ambiental e também denunciado. São dois processos?

São. A multa corre no processo administrativo e o crime corre na Justiça criminal, com provas e prazos próprios. A absolvição criminal por falta de prova do fato repercute na esfera administrativa, e por isso as duas defesas precisam conversar entre si.

Decisão como a do caso acima só serve para quem chega a tempo. Quem foi intimado por incêndio florestal tem um prazo curto na frente, e é dentro dele que a perícia se discute.

Procure um advogado especialista em crime de incêndio florestal antes que a resposta à acusação seja protocolada sem pedir o laudo. Depois que a instrução começa, recuperar essa prova fica muito mais difícil.

Sobre o Autor

Cláudio Farenzena

Advogado especialista em Direito Ambiental e do Agronegócio pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), professor do Direito Ambiental e Vice-Presidente do Instituto de Direito Agroambiental (IDAM). Atua desde 2017 em todo o Brasil para defender empresas e produtores rurais em processos administrativos, criminais, ação civil pública e execução fiscal de multa ambiental.

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